Era uma família tradicional: um casal, dois filhos. O pai, dentista, queria o filho no mesmo caminho. O filho, que terminava o Ensino Médio, tinha uma banda, queria ser músico. Todos os dias eram iguais naquela casa: as mesmas discussões à mesa, em frente à TV. O pai, sempre pressionando, falava que era o melhor futuro, já que ele já tinha um consultório – é sua obrigação continuar os negócios da família.
A tensão emanava das paredes, que pareciam repetir cada palavra já dita. O filho estava ficando sem saída, o tempo para tomar a decisão estava acabando. A mãe dizia que o pai estava certo – ser músico não tem futuro. A irmã era outra que não o deixava em paz – papai tem razão. Ele tinha certeza de que ela seguiria todas as ordens do pai, como um cachorro. Sentia-se ele próprio um cachorro, sempre se rendendo às vontades do pai. Revoltou-se. Mas por que seria diferente? Avisou ao pai que iria inscrever-se no curso de Odontologia. Foi saudado por toda a família. Parentes vieram para o almoço.
No dia seguinte, fez sua inscrição. Voltou para casa, os olhos baixos no papel em sua mão. Chegou à casa, entregou o papel ao pai e pegou sua guitarra: seria um dentista.

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